Monday, January 08, 2007

O Vazio

Niilismo é coisa pra quem tem fé...

Acreditar em nada é a suprema manifestação de credulidade, por partir do ponto de vista de que o vazio é senhor absoluto dos destinos humanos.

É perceber que a morte é fim invariável, condutora de vivazes destinos para o supremo telos: não ter destino nenhum.

É perceber que o ocaso do dia é noite, e não o contrário.

É acolher a esperança suplício dos que vivem na dimensão da infinita inaceitação da realidade.

É prova de sensatez, de coerência...

Mas o dia em Gênesis é tarde e manhã...

Mas o fim da história de Jesus não é morte, mas ressurreição...

Mas permanecem a fé, esperança e o amor, e não a coerência, a sensatez e o vazio...

Passo a entender o invariável: a fé em Deus é vazia. Ela é própria para os niilistas.

Já que tudo termina no vazio, no nada, na compreensão de que os desvarios e delírios da esperança humana acabam frustrados, é melhor viver o vazio da fé: o ato de agarrar-se ao nada. Trocar certezas e realizações pelo vazio. Aquilo que alimenta pela fome. A conversa com o outro pela conversa com o Vazio, nosso definitivo interlocutor - "jejuai e orai, para que não entreis em tentação..."

Isto faz bem...

Num mundo de razões vazias, a ilusão está cheia de razão por não ter razão alguma.

Cheguei um dia à conclusão de que é melhor pensar como Dostoiévsky: "ainda que se prove que Deus não existe, continuaremos crendo nele".

Porque a fé se alimenta do vazio... a fagia da fideía é vazia. E os vazios de fideísmos geram ausências; ausências do que nunca vi.

Logo, a melhor pergunta já feita por alguém É: "O que é a verdade?"

E a melhor resposta é: ...

Silêncio, nada.

Esperança...

Ser cristão é ter esperança. E se não houver nada após o fim, pelo menos vivemos melhor do que os outros a nossa tênue ilusão.

Mas se há algo - e creio que há - o nada é invólucro dos que não puderam dizer: "eu creio"